Ésteres de cetona: não são combustível de corrida, mas uma ferramenta de adaptação?
Um estudo de oito semanas mostrou ganho expressivo de potência e de adaptações mitocondriais com éster de cetona tomado após o treino. Mas no resto da literatura o efeito geralmente não aparece — entenda por que as duas imagens podem ser verdadeiras.
Os ésteres de cetona passaram por um ciclo completo de moda esportiva. Primeiro foram apresentados como o combustível secreto de corrida, depois os estudos, um após o outro, não encontraram ganho em contrarrelógios, e o tema quase se apagou. Agora ele voltou por outro lado: talvez a gente simplesmente estivesse tomando na hora errada. Não antes da largada, mas depois do treino — não como combustível, e sim como sinal de adaptação.
Onde estava o erro da primeira onda
A lógica de «cetonas = combustível extra» parecia coerente: em jejum o fígado produz corpos cetônicos, músculos e cérebro sabem oxidá-los, então tomar o éster daria mais uma fonte de energia ao lado dos carboidratos. Na prática, tudo esbarrou no fato de que, em alta intensidade, o organismo já funciona muito bem com carboidratos, e as cetonas nessas condições acrescentam pouco e às vezes competem com a glicólise.
A nova hipótese é radicalmente diferente. Os corpos cetônicos também são moléculas sinalizadoras. Eles influenciam a expressão gênica, a resposta inflamatória e a recuperação. Se for assim, faz sentido tomá-los não durante o percurso, mas na janela de recuperação, quando o organismo decide quais adaptações consolidar.
O que mostrou o estudo de oito semanas
O trabalho de Robberechts et al. (The Journal of Physiology, 2026) testou exatamente essa versão. 28 ciclistas homens treinados (VO₂peak de aproximadamente 50–55 ml/kg/min) cumpriram 8 semanas de treinamento estruturado — dois blocos de quatro semanas no esquema «3 semanas de carga crescente + 1 semana de descarga». Metade recebeu 25 g de monoéster de cetona após cada treino e mais 25 g 30 minutos antes de dormir nos dias de treino; a outra metade recebeu placebo isocalórico.
A diferença foi considerável:
- A potência média no grupo do éster ficou cerca de 4% mais alta na sétima semana, e a vantagem se manteve depois da descarga.
- A potência de pico subiu 52 W contra 25 W no placebo.
- O VO₂peak ganhou 6,4 contra 3,3 ml/kg/min.
- A citrato sintase — marcador clássico de densidade mitocondrial — cresceu mais que o dobro.
- O conteúdo proteico do complexo II da cadeia respiratória aumentou 25%, enquanto no controle não mudou nada.
Além disso, os autores registraram aumento da angiogênese no músculo esquelético e nível mais alto de eritropoetina (EPO) circulante. Ou seja, não se trata de «ficou mais fácil pedalar», e sim de uma remodelação do músculo e do transporte de oxigênio.
Por que os demais dados dizem outra coisa
Aqui é obrigatória uma ressalva honesta, senão isto vira publicidade.
Uma revisão sistemática de suplementos de cetona (10 estudos, 112 participantes) analisou 16 desfechos de desempenho: 3 resultados positivos, 10 nulos e 3 negativos. Ou seja, o desfecho mais frequente é «nenhuma diferença». E um trabalho específico no Journal of Applied Physiology (2025) mostrou que, em condições de hipóxia aguda, o éster de cetona piorou o resultado, sem afetar nem as funções cognitivas nem o nível de EPO.
Como isso convive com o experimento de oito semanas? Provavelmente assim: quase toda a literatura antiga mediu o efeito agudo sobre o resultado — tomou e foi para o contrarrelógio. Já o novo trabalho mediu a adaptação crônica a um bloco de treinamento. São duas perguntas diferentes, e o «não» à primeira não diz nada sobre a segunda. Mas também vale o inverso: um único estudo com 28 homens não é uma sentença a favor das cetonas, e sim um motivo para replicação.
Para quem isso (não) serve
A camada prática, sem ilusões:
- Não é um suplemento pré-largada. Se você espera tomar o éster uma hora antes da largada e correr mais rápido, os dados não apoiam. Funcionou justamente a ingestão depois do esforço e antes de dormir.
- É caro. 50 g de éster por dia nos dias de treino são uma despesa incomparável à do suplemento esportivo comum. Com orçamento limitado, sono, alimentação e um plano bem-feito rendem mais.
- Sabor e trato gastrointestinal. Os ésteres de cetona são conhecidos pelo sabor desagradável e pela capacidade de provocar náusea e desconforto estomacal. Experimentar pela primeira vez antes de um bloco importante é má ideia.
- A amostra é estreita. Ciclistas homens treinados, de nível intermediário de preparo. Como isso funciona em mulheres, em corredores e em atletas realmente de elite, cuja margem de adaptação é menor, ninguém sabe.
- Os ésteres de cetona não constam na lista proibida da WADA, mas com qualquer suplemento vale conferir a certificação do lote.
O principal é não confundir causa e consequência. Neste estudo, as cetonas não substituíram o treino: elas amplificaram a resposta a ele. Sem o próprio bloco de treinamento, não haveria nada a amplificar.
O essencial
- A velha ideia de «cetonas como combustível de corrida» não se confirmou nas evidências — nas revisões predominam resultados nulos.
- A nova hipótese é cetonas como moléculas sinalizadoras de recuperação: tomar depois do treino e antes de dormir, não antes da largada.
- No ECR de 8 semanas (28 ciclistas, 25 g ×2 nos dias de treino), o grupo do éster ganhou bem mais: potência de pico +52 contra +25 W, VO₂peak +6,4 contra +3,3 ml/kg/min, aumento duas vezes maior da citrato sintase.
- É um único estudo em amostra estreita — ciclistas homens treinados. Não transfira a conclusão automaticamente para você.
- Em hipóxia, o éster de cetona piorou o resultado — o contexto importa.
- Caro, com sabor ruim e possíveis problemas gastrointestinais. Primeiro sono, alimentação e plano — depois o exótico.
Fontes: Robberechts R., Bekhuis Y., Stalmans M. et al. «Post-exercise ketone supplementation improves endurance performance and mitochondrial adaptations during an 8-week endurance training intervention», The Journal of Physiology, 2026. https://doi.org/10.1113/JP290315. «Utility of Ketone Supplementation to Enhance Physical Performance: A Systematic Review», Advances in Nutrition. https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S2161831322002654. «Ketone ester ingestion impairs exercise performance without impacting cognitive function or circulating EPO during acute hypoxic exposure», Journal of Applied Physiology, 2025. https://doi.org/10.1152/japplphysiol.00097.2025