Creatina e queda de cabelo: um experimento com jogadores de rúgbi de 2009 contra um ECR de 12 semanas com tricoscopia
Todo o medo cresceu de um único trabalho: 20 jogadores de rúgbi, DHT +56% depois de uma semana de carga. O cabelo, na ocasião, ninguém contou. Dezesseis anos depois, finalmente o contaram diretamente — 38 homens, 5 g por dia, tricograma e FotoFinder. Não houve diferença em relação ao placebo nem no DHT, nem na densidade dos fios.

A creatina é o tema mais lido do nosso blog, e a pergunta mais frequente sob ele não é sobre resistência. Ela soa assim: «e o cabelo, não vai cair?» A pergunta vive em todo chat em que se discutem suplementos, e em setembro ela ressurgiu junto com a moda da creatina como nootrópico. Vamos ver de onde ela veio e o que mostrou o único estudo que de fato mediu o cabelo.
De onde vem o medo
De um único trabalho. Em 2009, van der Merwe e colaboradores (Clinical Journal of Sport Medicine) deram a 20 estudantes jogadores de rúgbi na África do Sul o esquema clássico: 25 g de creatina por dia durante 7 dias (carga), depois 5 g por dia durante 14 dias. O desenho é decente — duplo-cego cruzado, com seis semanas de intervalo entre os braços.
A testosterona não mudou. Já a di-hidrotestosterona (DHT) subiu 56% depois da semana de carga e permaneceu 40% acima do valor inicial depois da fase de manutenção. A razão DHT/testosterona — +36% e +22%, respectivamente, p < 0,01.
O DHT é justamente o androgênio ao qual os folículos são sensíveis na alopecia androgenética. Dali em diante a cadeia se montou sozinha: creatina → DHT → calvície. Três detalhes importantes costumam ser omitidos nesse ponto:
- o cabelo não foi medido nesse trabalho de forma alguma — nem densidade, nem espessura, nem queda;
- os valores de DHT, mesmo elevados, permaneceram dentro das faixas de referência;
- em dezesseis anos o resultado nunca foi reproduzido. Pela revisão de Antonio e colaboradores (JISSN, 2021), de doze outros estudos em que se mediu a testosterona de quem tomava creatina, dez não encontraram alterações, e dois encontraram alterações pequenas e fisiologicamente insignificantes; o DHT, até 2025, ninguém mais mediu.
O que fizeram no novo ECR
Lak e colaboradores (Journal of the International Society of Sports Nutrition, 2025) testaram pela primeira vez, num ensaio clínico randomizado (ECR), não o hormônio intermediário, e sim o desfecho final — o próprio cabelo.
Desenho. 45 homens de 18–40 anos, praticantes de treinamento de força, randomizados para creatina monoidratada 5 g/dia ou placebo de 5 g de maltodextrina, por 12 semanas. Alimentação e treinos — os habituais, sem intervenção. Antes e depois — sangue para testosterona total, testosterona livre e DHT; o cabelo foi avaliado por tricograma (microscopia de fios arrancados, por fase de crescimento) e pelo sistema FotoFinder — tricoscopia digital que conta a densidade de fios, o número de unidades foliculares e a espessura somada numa área fixa do couro cabeludo. Chegaram ao fim 38 pessoas.
Resultado. Não houve interação «grupo × tempo» em nenhum hormônio e em nenhum indicador do cabelo (p > 0,05).
- A testosterona total subiu nos dois grupos ao longo das 12 semanas — 124 ± 149 ng/dl na creatina e 216 ± 203 no placebo; a testosterona livre caiu ligeiramente nos dois. É efeito do tempo e dos treinos, não do suplemento.
- DHT e razão DHT/testosterona — sem diferenças entre os grupos.
- Densidade de fios, número de unidades foliculares, espessura somada — sem diferenças.
Os autores chamam isso de primeira prova direta contra a ligação entre creatina e queda de cabelo. A formulação é forte, mas vejamos o que ela cobre e o que não cobre.
O que isso prova e o que não prova
Prova: três meses da dose de manutenção padrão em homens jovens não movem nem o DHT nem os indicadores objetivos do cabelo. Para a maioria dos corredores e triatletas, esse é exatamente o cenário em que tomam creatina — 3–5 g por dia sem carga.
A carga não foi testada. O salto do DHT nos jogadores de rúgbi aconteceu com 25 g/dia. No novo trabalho não houve essa fase. A pergunta «o que faz uma semana de 20–25 g» segue em aberto — embora, mesmo em van der Merwe, o DHT já estivesse caindo no fim da fase de manutenção.
12 semanas é pouco para alopecia. O ciclo de crescimento do fio leva anos, e a calvície androgenética se desenvolve ao longo de anos. A tricoscopia é sensível a mudanças precoces (proporção de fios em telógeno, miniaturização), mas três meses não excluem um efeito lento em pessoas geneticamente predispostas. Um estudo desse tipo não existe, nem num sentido nem no outro.
38 pessoas é capacidade de detectar só um efeito médio ou grande. Um pequeno deslocamento no subgrupo com histórico familiar de calvície, uma amostra assim deixa passar.
Só homens de 18–40 anos em treino de força. Sobre mulheres, sobre a faixa acima de 40 e sobre modalidades de resistência não há dados — embora não se veja um mecanismo pelo qual a modalidade esportiva mudaria a resposta dos folículos.
Como aplicar
- Se há calvície na família — a creatina não é a alavanca que vai ligá-la ou desligá-la. Genética e idade pesam incomparavelmente mais.
- Notou queda intensificada com os treinos — antes de culpar o pote, verifique ferritina, TSH e balanço energético: o eflúvio telógeno 2–3 meses depois de uma deficiência de ferro ou de um déficit calórico brusco é muito mais frequente em corredores do que o hipotético efeito da creatina.
- Mesmo assim está preocupado — pule a carga. 3–5 g por dia saturam os músculos em 3–4 semanas, e foi justamente a carga o único regime em que o DHT se mexeu.
- Regime nootrópico — os mesmos 5 g/dia; o novo ECR cobre esse cenário por completo.
O essencial
- O medo vem de um único trabalho de 2009: 20 jogadores de rúgbi, DHT +56% depois de uma semana com 25 g, o cabelo não foi medido, o resultado não foi reproduzido.
- ECR de 2025: 38 homens, 5 g/dia, 12 semanas, tricograma + FotoFinder — nenhuma diferença em relação ao placebo nem no DHT, nem na densidade, espessura e número de folículos.
- Limitações: sem fase de carga, três meses contra um processo de muitos anos, só homens jovens.
- Para o regime padrão de 3–5 g/dia que os corredores usam, não há hoje dados melhores do que estes — e eles são negativos.
Fontes: Lak M., Forbes S.C., Ashtary-Larky D., Dadkhahfar S., Robati R.M., Nezakati F., Khajevandi M., Naseri S., Gerafiani A., Haghighat N., Antonio J., Tinsley G.M. «Does creatine cause hair loss? A 12-week randomized controlled trial». Journal of the International Society of Sports Nutrition, 2025;22(sup1):2495229. DOI: 10.1080/15502783.2025.2495229 · van der Merwe J., Brooks N.E., Myburgh K.H. «Three weeks of creatine monohydrate supplementation affects dihydrotestosterone to testosterone ratio in college-aged rugby players». Clinical Journal of Sport Medicine, 2009;19(5):399–404. DOI: 10.1097/JSM.0b013e3181b8b52f · Antonio J. et al. «Common questions and misconceptions about creatine supplementation: what does the scientific evidence really show?». Journal of the International Society of Sports Nutrition, 2021;18:13. DOI: 10.1186/s12970-021-00412-w