Altura do selim e dor no joelho: os 40 graus a partir dos quais começam os problemas
Nos ciclistas com flexão de joelho acima de 40°, a dor foi de 4,4 numa escala de dez pontos; nos demais, 0,9. Depois do ajuste do selim para 25–30°, a dor caiu para 1,4 em duas semanas. Analisamos o estudo e o que fazer com as fórmulas.

O diálogo que se repete em todo grupo de ciclismo: «o joelho doía, levantei o selim, passou». Em seguida aparece sempre alguém a quem aconteceu exatamente o contrário: levantou demais e teve de baixar. E um terceiro, que propõe medir o comprimento da perna pela costura interna e multiplicar por 0,883.
Os três têm parte de razão, e quem ajuda a esclarecer isso é um trabalho publicado em setembro de 2025.
A dimensão do problema
O joelho é a articulação mais afetada no ciclismo. Segundo dados epidemiológicos, de 50 a 90% dos ciclistas sofrem lesões por sobrecarga, e a dor anterior no joelho aparece em 40–63% tanto de amadores quanto de profissionais. Na maioria das vezes trata-se de síndrome da dor patelofemoral, tendinopatia do tendão patelar ou síndrome da banda iliotibial.
A altura do selim é considerada um fator crítico justamente porque define diretamente a cinemática da perna e a carga sobre a patela.
O que os pesquisadores fizeram
O trabalho foi publicado no Journal of Physical Education and Sport (Chile, Universidade de Viña del Mar). O desenho é um estudo correlacional longitudinal.
Participantes: 38 ciclistas amadores do sexo masculino, de estrada e MTB, com idade de 25–57 anos (em média 40,3 ± 8,9). Pessoas treinadas, mas não da elite: FTP de 224,7 ± 38,8 W, ou seja, 3,3 ± 0,8 W/kg, e volume de 225 ± 119,9 km por semana.
Todos foram divididos pelo ângulo de flexão do joelho no ponto morto inferior do pedal:
- flexão acima de 40° — 21 pessoas;
- flexão abaixo de 40° — 17 pessoas.
A cinemática foi registrada em vídeo com marcadores refletivos e analisada no Kinovea — uma análise bidimensional comum, no plano sagital. A dor foi avaliada pela escala visual analógica três vezes: antes do ajuste, logo depois e duas semanas depois.
Resultados
A diferença entre os grupos antes da intervenção foi grande:
- flexão > 40° — dor de 4,4 ± 1,9;
- flexão < 40° — dor de 0,9 ± 1,5;
- p < 0,001.
A correlação entre o ângulo de flexão e a dor foi de r = 0,72 — uma associação forte.
Depois do ajuste do selim, os ângulos do primeiro grupo caíram para os 25–30° recomendados, e a dor diminuiu:
- logo após o ajuste — 2,7 ± 1,4;
- duas semanas depois — 1,4 ± 1,6.
E mais: depois do ajuste, a correlação entre ângulo e dor desapareceu — ou seja, a associação era mesmo com o ângulo, e não com alguma outra coisa que dependesse dele. No grupo cujos ângulos já eram normais desde o início, nada mudou de forma significativa, o que é lógico: não havia o que consertar.
Por que o ângulo é decisivo
Selim baixo demais significa flexão excessiva no ponto morto inferior e aumento da compressão na articulação patelofemoral. A patela é pressionada com mais força contra o fêmur a cada pedalada — e são cerca de cinco mil pedaladas em um treino de uma hora.
Selim alto demais significa hiperextensão, balanço da pelve de um lado para o outro, tensão na parte posterior da coxa e desconforto no selim.
O quanto o sistema é sensível já havia sido mostrado por uma revisão na Sports Medicine de 2011: uma mudança de 5% na altura do selim altera a cinemática do joelho em cerca de 35%, e os momentos na articulação em 16%. É de lá também que vem a própria faixa de 25–30° no ponto morto inferior.
O que fazer com as fórmulas
Aquelas mesmas fórmulas em torno das quais tanto se discute:
- 0,883 × comprimento da perna pela costura interna — até o centro do movimento central (fórmula de LeMond);
- 109% do comprimento da perna — até a superfície do pedal (Hamley e Thomas).
Elas funcionam? Como ponto de partida, sim. Num estudo piloto de 2025 com escaneamento 4D, a posição definida pela fórmula reduziu os ângulos de extensão do joelho em 6,3–8,0° em comparação com a altura que os próprios ciclistas escolheram. Ou seja, em média a intuição erra, e a fórmula corrige.
Mas a fórmula é uma média antropométrica. Ela não conhece o comprimento da sua coxa em relação à perna, a espessura da sola, a posição do taco, a sua acomodação no selim nem a mobilidade do tornozelo. Todas essas coisas mudam o ângulo final com uma mesma altura medida na régua.
Por isso, meça o ângulo, e não o comprimento da perna. A fórmula serve apenas para acertar a região certa logo na primeira tentativa.
Ordem prática de ações
Grave um vídeo. Rolo de treino, filmagem estritamente de lado e na altura do movimento central, 60 quadros por segundo, cadência habitual e posição habitual. O ângulo é medido no ponto morto inferior — entre coxa, joelho e tornozelo.
A referência são 25–30°. Se deu mais de 40°, você tem um motivo claro para cuidar do ajuste.
Mude no máximo 5 mm por vez e pedale na nova altura por dois ou três treinos antes de julgar. O corpo não se adapta à posição instantaneamente.
Leia a localização da dor. Na frente, sob a patela, é típico de selim baixo. Atrás, embaixo do joelho, somado ao balanço da pelve, é típico de selim alto.
Não mexa só na altura. O recuo do selim para frente e para trás e a posição do taco mudam o ângulo efetivo tanto quanto o canote. Mudar tudo de uma vez é a garantia de não entender o que ajudou.
Com honestidade sobre as limitações
Há muitas limitações aqui, e elas são relevantes.
Apenas homens, 38 pessoas. A posição feminina é diferente em proporções e na anatomia da pelve, e esse trabalho não diz nada a respeito.
Não há grupo controle. Ninguém verificou o que teria acontecido com a dor em duas semanas sem qualquer ajuste. Parte do efeito pode ser curso natural.
A avaliação da dor é subjetiva e sem cegamento. Os participantes sabiam que a bicicleta havia sido ajustada — e avaliavam a dor eles mesmos. Isso vale especialmente para a medição «logo depois»: ali a expectativa atua com toda a força. O resultado de duas semanas parece mais consistente.
Análise bidimensional. O movimento do joelho para dentro e para fora, que também está ligado à dor, não aparece numa filmagem lateral.
Em outras palavras, o trabalho confirma bem, em amadores reais, uma recomendação biomecânica já conhecida, mas não é uma prova rigorosa de causalidade.
O essencial
- Lesões por sobrecarga atingem 50–90% dos ciclistas, e a dor anterior no joelho, 40–63%.
- Estudo de 2025, 38 amadores de 25–57 anos: com flexão de joelho > 40°, dor de 4,4 ± 1,9 contra 0,9 ± 1,5 quando < 40° (p < 0,001), correlação de r = 0,72.
- Depois do ajuste do selim para 25–30°, a dor caiu para 2,7 logo em seguida e 1,4 duas semanas depois; a correlação com o ângulo desapareceu.
- Uma mudança de 5% na altura do selim altera a cinemática do joelho em ~35% — o sistema é muito sensível.
- As fórmulas (0,883 × comprimento da perna, 109%) são ponto de partida, não resposta; o que precisa ser verificado é o ângulo, por vídeo.
- Dor na frente indica mais provavelmente selim baixo; dor atrás e balanço da pelve, mais provavelmente selim alto.
- O passo de ajuste é de no máximo 5 mm, e a avaliação vem depois de dois ou três treinos.
- Limitações: apenas homens, sem grupo controle, avaliação da dor subjetiva e sem cegamento, análise bidimensional.
Fontes: Martínez M., Pérez M.A., «Biomechanical analysis of knee flexion and saddle height adjustment on knee pain in amateur cyclists», Journal of Physical Education and Sport, 2025;25(9), Art 217, pp. 1953–1959. https://doi.org/10.7752/jpes.2025.09217. Bini R., Hume P.A., Croft J.L., «Effects of Bicycle Saddle Height on Knee Injury Risk and Cycling Performance», Sports Medicine, 2011;41(6). https://doi.org/10.2165/11588740-000000000-00000