Síndrome de overtraining: por que os exames quase sempre vêm «normais»

Uma revisão de 30 estudos mostrou: não existe um marcador único de overtraining, e o diagnóstico é feito por exclusão. Analisamos o que realmente vale a pena acompanhar e quando é hora de procurar não o treinador, mas o médico.

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Andrey Leskov

O cenário é familiar para quase todo mundo que algum dia aumentou o volume a sério: o ritmo no pulso de sempre caiu, as pernas estão pesadas pela terceira semana seguida, o sono piorou, a motivação sumiu. O primeiro passo lógico é fazer exames. E é aí que vem a grande decepção: na maioria das vezes eles voltam normais. Isso não significa que você inventou tudo. Significa que o overtraining não se pega assim.

É um espectro, não um interruptor

A confusão começa pelos termos, e vale esclarecê-la de saída. A definição consensual (declaração conjunta do ECSS e do ACSM, 2013) descreve três estados que se distinguem menos pelos sintomas e mais pelo tempo de volta à ativa:

  • Overreaching funcional (functional overreaching) — a queda de forma planejada depois de um bloco duro. A recuperação leva dias, e depois vem a supercompensação. É uma parte normal e necessária do treinamento.
  • Overreaching não funcional (non-functional overreaching) — a mesma queda, mas a saída dela se estende por semanas ou meses, e no fim não há ganho nenhum.
  • Síndrome de overtraining (OTS) — um quadro grave, cujo retorno se mede em meses e anos.

O problema é que, no momento em que acontecem, esses três estados parecem iguais. Só dá para diferenciá-los em retrospecto — pelo tempo que você levou. É exatamente por isso que «estou com overtraining» quatro dias depois de uma semana pesada é quase certamente um diagnóstico errado.

Por que os exames não ajudam

Uma scoping review recente (Carrard e cols.) reuniu 39 publicações de 30 estudos independentes, ao todo 952 pessoas — 328 com sinais de OTS e 624 no controle. A tarefa era simples: encontrar um teste que feche o diagnóstico. A conclusão é desanimadora: não existe padrão-ouro, e a OTS continua sendo um diagnóstico de exclusão.

Alguma coisa nos dados até aparece. Em pessoas com OTS encontraram testosterona reduzida, cortisol elevado e resposta embotada a testes de estimulação; alterações na glutamina e no perfil lipídico; mudanças em marcadores imunes e de estresse oxidativo; deslocamento da variabilidade da frequência cardíaca no sentido do predomínio parassimpático; um perfil psicológico característico no questionário POMS — fadiga alta e vigor baixo. Merecem menção à parte as escalas EROS (clínica, simplificada e completa), que nos estudos conseguiram separar todos os atletas homens supostamente em overtraining dos saudáveis.

Mas daí em diante começam as ressalvas. Nenhum marcador isolado tem poder discriminativo suficiente — os autores escrevem diretamente que são necessárias combinações de variáveis, porque o quadro é multissistêmico. E as escalas EROS ainda precisam ser testadas em amostras grandes e em mulheres, que quase não apareceram nos estudos.

Daí vem a conclusão prática: um exame de sangue normal não exclui overtraining, e um cortisol «ruim» por si só não o confirma.

O que acompanhar de verdade

Se não há respostas laboratoriais, funcionam coisas simples que você mesmo pode registrar. A ideia central é comparar você com você mesmo no mesmo trabalho:

  • Pulso em ritmo fixo. Não o máximo, e sim o submáximo: a mesma velocidade no mesmo circuito. Um pulso que sobe com o ritmo inalterado — ou, ao contrário, um pulso que «não sobe» embora o esforço esteja pesado — é um sinal.
  • Velocidade de recuperação do pulso depois de um trecho padronizado.
  • Esforço percebido (RPE) em um trabalho conhecido. Se a corrida leve de sempre parece consistentemente um ou dois pontos mais pesada, isso é dado, não lamúria.
  • Humor e vigor. As escalas do tipo POMS não estão por acaso entre os marcadores mais sensíveis: o perfil psicológico muda com frequência antes do fisiológico.
  • Potência ou ritmo em um trecho de controle — uma queda que não se recupera com uma semana de descarga.

Nenhum desses indicadores é um diagnóstico. Mas a dinâmica do conjunto é mais informativa do que qualquer tubo de ensaio isolado.

Quando procurar o médico

Aqui vem uma virada importante: antes de se autodiagnosticar com overtraining, é preciso descartar aquilo que tem tratamento. A abordagem consensual exige primeiro afastar outras causas — e a lista delas é bem concreta: deficiência de ferro e anemia, distúrbios da tireoide, depressão, além de infecções e deficiência de energia.

Isso não é formalidade. Os sintomas de todos esses quadros se sobrepõem quase por completo: fadiga, queda de desempenho, sono ruim, apatia. A diferença é que ferro e tireoide se corrigem, enquanto o «overtraining» só se trata com tempo.

Por isso a ordem correta é esta: queda de forma prolongada → avaliação básica com o médico (incluindo ferritina e hormônios tireoidianos) → e só com resultados limpos se conversa sobre overreaching. À parte, vale manter em mente a deficiência de energia: comer menos do que o volume exige produz um quadro muito parecido.

E, por fim, a única coisa que realmente funciona quando o estado já se instalou é reduzir a carga e dar tempo. A tentativa de «correr por cima disso» estica o caminho de semanas para meses.

O essencial

  • Overtraining é um espectro: overreaching funcional (dias), não funcional (semanas–meses), OTS (meses–anos). No momento em que acontecem, são indistinguíveis.
  • Não há padrão-ouro de diagnóstico; OTS é um diagnóstico de exclusão. A revisão de 30 estudos e 952 pessoas confirmou isso.
  • Biomarcadores isolados não têm poder discriminativo suficiente — são necessárias combinações; as escalas EROS são promissoras, mas não foram testadas em mulheres.
  • Acompanhe pulso submáximo, recuperação da FC, RPE em trabalho conhecido, humor e um trecho de controle — a dinâmica, e não valores isolados.
  • Primeiro descarte ferro, tireoide, depressão e deficiência de energia — eles têm tratamento, ao contrário do overtraining.
  • A única terapia que funciona é descarga e tempo. Não dá para «correr por cima» desse estado.

Fontes: Carrard J., Rigort A.-C., Appenzeller-Herzog C. e cols. «Diagnosing Overtraining Syndrome: A Scoping Review», Sports Health, 2022. https://doi.org/10.1177/19417381211044739. Declaração conjunta do ECSS e do ACSM sobre overreaching e síndrome de overtraining, 2013. «Diagnosis and Prevention of Overtraining Syndrome: an opinion on education strategies», Open Access Journal of Sports Medicine. https://www.dovepress.com/diagnosis-and-prevention-of-overtraining-syndrome--an-opinion-on-educa-peer-reviewed-fulltext-article-OAJSM