Vitamina D e lesões em atletas: o que mostraram os dados de 2026
Dois terços dos atletas universitários têm falta de vitamina D, e cada queda de 5 ng/mL aumenta em 13% as chances de lesão. Vemos quem está no grupo de risco e o que fazer se você corre ou treina triatlo.
Você aumenta o volume, cuida do sono, conta a proteína — e mesmo assim, em março, aparece uma periostite ou uma „dor estranha no pé“. Uma peça possível do quebra-cabeça em que quase ninguém pensa: a vitamina D. Dados recentes mostram que a maioria dos atletas não tem o suficiente dela, e que isso está associado a um risco maior de lesão.
O que mostraram os estudos
Um trabalho publicado na Sports Health (2026) analisou dados de 284 atletas universitários de uma universidade da primeira divisão. O panorama dos níveis sanguíneos de 25(OH)D foi este:
- 47,2% — insuficiência (20–31 ng/mL);
- 17,6% — deficiência (<=19 ng/mL);
- níveis normais (>=32 ng/mL) — apenas uma minoria.
Ou seja, quase dois terços dos atletas tinham vitamina D abaixo do normal.
O principal resultado: as chances de se lesionar durante o período de observação eram 13% maiores a cada queda de 5 ng/mL no nível de vitamina D (razão de chances 1,13; p = 0,05). Ao mesmo tempo, os autores não encontraram relação entre o nível de vitamina D e o momento em que a lesão ocorreu, nem com a duração da recuperação depois dela.
Um ponto à parte sobre força e potência. Neste estudo apareceu uma relação negativa entre a vitamina D e a altura máxima de salto (p = 0,04) e a força máxima de salto (p = 0,01), mas os próprios autores classificaram essas variações como clinicamente irrelevantes. Em outras palavras: vitamina D não é sobre saltar mais alto.
Uma revisão de 2026 (Quality in Sport) acrescenta contexto. Os dados mais consistentes dizem respeito à saúde óssea e ao risco de lesões ósseas por estresse. Também se discute o papel da vitamina D na recuperação: os suplementos podem reduzir marcadores de dano muscular e melhorar o estado inflamatório, mas os resultados são contraditórios. Há dados que ligam níveis baixos a rupturas do ligamento cruzado anterior (LCA) e à perda de massa muscular após a reconstrução do ligamento. Quanto à imunidade, a vitamina D reduz citocinas pró-inflamatórias e apoia a prevenção de infecções respiratórias agudas, especialmente quando havia deficiência no início. Já em relação ao desempenho esportivo, os autores escrevem sem rodeios: as evidências continuam pouco convincentes.
Quem está no grupo de risco
A vitamina D obtemos principalmente não pela comida, mas pela pele sob a ação dos raios UVB. Daí a lista de risco:
- latitudes ao norte e inverno — do fim do outono ao início da primavera a síntese na pele praticamente para;
- treinos em ambiente fechado — piscina, academia, pista coberta, rolo;
- treinos bem cedo ou à noite — quando o sol está baixo e quase não há UVB;
- pele escura — mais melanina, é preciso mais tempo ao sol;
- roupa que cobre o corpo — calça de compressão, manga longa, corta-vento (ou seja, o equipamento típico do corredor no inverno);
- protetor solar regular nas áreas expostas.
Se reconheceu em três ou mais pontos? Muito provavelmente você está justamente nesses 65%.
O que fazer na prática
1. Fazer o exame, e não adivinhar. É preciso o valor de 25(OH)D no soro sanguíneo. O melhor momento para avaliar o pior cenário é o fim do inverno / início da primavera (fevereiro–março), quando as reservas estão no mínimo. Um exame no verão mostrará o seu máximo, não o seu problema.
2. Comida e sol são a base. Fontes alimentares reais: peixes gordos (salmão, cavala, arenque), gema de ovo, alimentos fortificados (laticínios e bebidas vegetais com vitamina D adicionada). Mais uma exposição sensata ao sol na estação quente — sem queimaduras.
3. Suplementos — conforme o exame e com o médico. Não „por via das dúvidas“ nem com uma „megadose preventiva“. O excesso de vitamina D pode causar hipercalcemia — e isso não é uma história inofensiva. E lembre-se: a vitamina D funciona em conjunto com o cálcio — ela regula a absorção dele, então é preciso olhar as duas partes da equação, e não apenas uma coluna do laudo.
4. Ligue isso ao seu quadro geral de risco. Se você já teve uma fratura por estresse, se treina em déficit de energia, perde peso durante a temporada ou, no caso das mulheres, o ciclo se desregulou (sinais de RED-S), então a vitamina D baixa não é um problema separado, mas parte de um mesmo emaranhado: baixa disponibilidade de energia + falta de nutrientes + alta carga de impacto = um osso que não consegue se recuperar a tempo.
Dois mitos na faca:
- „No verão todo mundo tem o suficiente.“ Tem o suficiente quem realmente fica ao sol com a pele exposta. O corredor matinal de calça longa e o trabalhador de escritório não entram nessa categoria. E as reservas caem de qualquer forma até o fim do inverno.
- „Quanto mais, mais forte.“ Os dados não sustentam a ideia de que uma vitamina D alta o torna mais potente. No trabalho da Sports Health a relação com os indicadores de salto foi até negativa — e clinicamente irrelevante.
Limitações
O estudo da Sports Health é de nível de evidência 4: uma análise retrospectiva de dados médicos coletados rotineiramente em uma única universidade, 284 pessoas. Isso é correlação, e não uma relação de causa e efeito comprovada: a vitamina D baixa pode ser um marcador de outras coisas (pouco tempo ao ar livre, déficit energético geral, composição da dieta). O valor p = 0,05 está exatamente no limite. A amostra é de atletas universitários de esportes coletivos e de modalidades variadas, e não especificamente de corredores de endurance. A revisão de 2026 é narrativa, e não sistemática com metanálise, e ela própria enfatiza como os dados sobre recuperação e desempenho são contraditórios.
O essencial
- Entre os atletas universitários, 47,2% tinham insuficiência e 17,6% deficiência de vitamina D.
- As chances de lesão eram 13% maiores a cada queda de 5 ng/mL no nível de 25(OH)D.
- A zona de efeito mais confiável são os ossos e as lesões ósseas por estresse; os dados sobre recuperação e imunidade são animadores, mas heterogêneos.
- A influência sobre o desempenho „puro“ (força, salto) é fraca e clinicamente irrelevante.
- Grupo de risco: norte, inverno, ambientes fechados, treinos muito cedo ou muito tarde, pele escura, roupa que cobre o corpo.
- Meça a 25(OH)D, de preferência no fim do inverno; comida e sol são a base; suplementos conforme o exame, sem megadoses, em conjunto com o cálcio.
Este material tem caráter educativo e não substitui a consulta com um especialista. Exames, interpretação dos resultados e uso de qualquer suplemento — somente com o seu médico.
Fontes: Low Vitamin D Levels Are Associated With Increased Risk of Musculoskeletal Injuries in Collegiate Athletes. Sports Health, 2026. https://doi.org/10.1177/19417381251407674 · Vitamin D Deficiency in Athletes: A Narrative Review. Quality in Sport, 2026. https://apcz.umk.pl/QS/article/view/70004