Paraxantina no lugar da cafeína: o que 14 remadores e 12 corredores revelaram sobre o «estimulante limpo» feito de um metabólito do café

Cerca de 70% da cafeína é convertida pelo fígado em paraxantina, e agora ela é vendida separadamente — como um estimulante sem insônia nem ansiedade. Num ECR de 2026 com remadores, a paraxantina sozinha não acelerou a prova de dois quilômetros, e num trabalho de 2024 com dez quilômetros de corrida não mudou o tempo em nada. Ela prejudicou menos o sono após o treino noturno — mas isso foi medido por questionário.

Paraxantina no lugar da cafeína: o que 14 remadores e 12 corredores revelaram sobre o «estimulante limpo» feito de um metabólito do café

A cafeína é o suplemento legal mais estudado no esporte de resistência, e tem uma faixa de uso clara: 3–6 mg por quilo, começando pelo limite inferior. Em setembro, nos canais de biohacking, voltou a circular outra ideia: tomar não a cafeína em si, e sim a paraxantina — o «estimulante sem efeitos colaterais». Vamos ver que substância é essa e o que ela mostrou nos dois estudos em que foi dada a atletas.

O que é a paraxantina

A cafeína (1,3,7-trimetilxantina) é metabolizada no fígado pela enzima CYP1A2 em três metabólitos. Cerca de 70–72% vira paraxantina (1,7-dimetilxantina); o restante, teobromina e teofilina. Ou seja, boa parte do que «funciona» depois de uma xícara de café já é paraxantina.

Os argumentos dos fabricantes do suplemento são estes:

  • fica menos tempo no sangue — no trabalho clássico de Lelo e colaboradores (British Journal of Clinical Pharmacology, 1986), em seis homens saudáveis a meia-vida de eliminação da cafeína foi de 4,1 horas, e a da paraxantina, de 3,1 horas;
  • não depende da velocidade de ação da CYP1A2, que varia geneticamente entre as pessoas;
  • em modelos de laboratório e animais — menos ansiedade e toxicidade, ligação mais forte aos receptores de adenosina.

Repare nos números: a diferença de meia-vida é de cerca de uma hora, e não de «várias vezes». A depuração da paraxantina e a da cafeína, no mesmo trabalho, são praticamente iguais.

Estudo 1: 12 corredores numa prova de dez quilômetros

Choongsung Yoo e colaboradores da Universidade Texas A&M (Journal of the International Society of Sports Nutrition, 2024) deram a 12 corredores treinados (11 homens, 1 mulher, VO₂máx de cerca de 52 ml/kg/min), em quatro visitas: placebo, 200 mg de cafeína, 200 mg de paraxantina ou ambos, 200 mg de cada. Em seguida — um contrarrelógio de 10 km na esteira em ritmo de competição e testes cognitivos antes e depois.

Corrida: sem diferença. O tempo na prova (em média 48,4 minutos), a frequência cardíaca, o esforço percebido, o lactato e o sprint de 30 segundos no cicloergômetro feito em seguida não diferiram entre nenhuma das versões.

Cabeça: vantagem parcial. Depois da corrida com paraxantina, a proporção de respostas corretas no teste de classificação de cartas aumentou 6,8% em relação ao nível pré-prova, e o tempo de reação foi 23% mais rápido que com placebo. No tempo de reação, a paraxantina não diferiu da cafeína; a combinação das duas substâncias não acrescentou nada.

Detalhe importante: o estudo foi financiado pelo fabricante da paraxantina patenteada, e três coautores são funcionários da empresa e autores de pedidos de patente. A coleta e a análise dos dados, segundo os autores, foram feitas sem a participação deles.

Estudo 2: 14 remadores e uma prova de dois quilômetros à noite

O trabalho de Bingöl Diedhiou e colaboradores (JISSN, 2026) foi feito sem financiamento externo. 14 estudantes remadores (22 anos, consumo habitual de 335 mg de cafeína por dia) fizeram 2000 m no remoergômetro das 19:00 às 20:00 — de propósito à noite, para avaliar também o sono. 45 minutos antes da largada, recebiam placebo, 200 mg de cafeína, 200 mg de paraxantina ou 200 + 200 mg.

  • Cafeína + paraxantina: 405,9 s contra 409,2 s com placebo — 3,3 s mais rápido (p = 0,044, efeito pequeno, d = 0,30), potência média de 335 W contra 327 W.
  • Só cafeína: 406,6 s — na mesma direção, mas sem convencer estatisticamente (p = 0,087).
  • Só paraxantina: nenhuma melhora clara.

O sono foi avaliado na manhã seguinte com uma escala de percepção subjetiva e uma escala de sonolência diurna. A combinação das substâncias piorou visivelmente o sono e aumentou a sonolência durante o dia; a versão só com cafeína foi na mesma direção; com a paraxantina sozinha, o quadro foi mais brando.

Onde está a pegadinha da «sinergia»

Os autores veem no melhor resultado da combinação um sinal de interação entre as duas substâncias. Mas esse grupo recebeu dose dupla de metilxantinas — 400 mg contra 200 mg nas outras versões, sendo que parte da cafeína se converte, ela mesma, em paraxantina. Os níveis sanguíneos das substâncias não foram medidos, então não dá para distinguir «sinergia» de «simplesmente mais estimulante» — e os autores reconhecem isso honestamente.

Outras limitações: 200 mg equivalem a cerca de 2,6 mg/kg, a borda inferior da faixa de uso da cafeína; só homens; sono avaliado por questionário, sem actigrafia.

Como aplicar

  • Manhã de prova — a cafeína continua sendo a principal ferramenta: 3 mg/kg cerca de uma hora antes, depois ajustando conforme a tolerância. Não há dados de que a paraxantina deixe você mais rápido na prova.
  • Intervalados à noite e sono ruim depois da cafeína — dá para experimentar a paraxantina, mas espere disposição, não watts extras. Uma opção mais simples com o mesmo propósito é reduzir a dose de cafeína ou tomá-la mais cedo.
  • Não misture em busca de «sinergia» — o efeito da combinação no estudo com remadores não pode ser separado da dose dupla.
  • O argumento do «CYP1A2 lento» ainda é teórico: nenhum dos estudos esportivos dividiu os participantes por genótipo.
  • Teste em você mesmo, como com qualquer suplemento: o mesmo treino de controle, o mesmo horário do dia, registro das sensações e do sono.

O essencial

  • A paraxantina é o principal metabólito da cafeína (cerca de 70%); fica no sangue cerca de uma hora a menos (3,1 contra 4,1 horas).
  • 12 corredores, 10 km: tempo, frequência cardíaca e lactato — sem diferença em relação ao placebo; na atenção após a corrida — vantagem moderada; o estudo foi pago pelo fabricante.
  • 14 remadores, 2000 m: a paraxantina sozinha não acelerou; a combinação com cafeína rendeu 3,3 s, mas com dose dupla de estimulante.
  • A possível vantagem real: ser um pouco mais suave para o sono em treinos noturnos. Para velocidade na prova, o padrão continua sendo a cafeína.

Fontes: Bingol Diedhiou A., Yildirim U.C., Ozdenk S. et al. «Comparative effects of caffeine and paraxanthine on rowing performance and sleep quality: a randomized crossover study». Journal of the International Society of Sports Nutrition, 2026;23(1):2650339. DOI: 10.1080/15502783.2026.2650339 · Yoo C., Xing D., Gonzalez D.E. et al. «Paraxanthine provides greater improvement in cognitive function than caffeine after performing a 10-km run». Journal of the International Society of Sports Nutrition, 2024;21(1):2352779. DOI: 10.1080/15502783.2024.2352779 · Lelo A., Birkett D.J., Robson R.A., Miners J.O. «Comparative pharmacokinetics of caffeine and its primary demethylated metabolites paraxanthine, theobromine and theophylline in man». British Journal of Clinical Pharmacology, 1986;22(2):177–182. DOI: 10.1111/j.1365-2125.1986.tb05246.x · Guest N.S., VanDusseldorp T.A., Nelson M.T. et al. «International society of sports nutrition position stand: caffeine and exercise performance». Journal of the International Society of Sports Nutrition, 2021;18:1. DOI: 10.1186/s12970-020-00383-4