Rodízio de tênis: menos 39% no risco de lesão — e por que não é tão simples

Corredores que alternavam vários pares se lesionaram bem menos. Mas o estudo é um só, tem mais de dez anos e é observacional. Vamos ver o que dá para aproveitar dele e o que foi acrescentado por conta própria.

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Anna Severova

O conselho «alterne seus tênis» aparece em qualquer página sobre corrida, e soa convincente: calçados diferentes, cargas diferentes, menos desgaste monótono. O curioso é que por trás dessa recomendação está, em essência, um único estudo. Ele não é ruim, mas conhecer suas limitações é útil antes de comprar o terceiro par.

O que o estudo mostrou

O trabalho foi publicado no Scandinavian Journal of Medicine & Science in Sports (2015). Foram acompanhados 264 corredores ao longo de 22 semanas: 116 corriam com um único par, 148 alternavam vários.

Resultado principal: entre os que alternavam, o risco de lesões relacionadas à corrida foi 39% menor — após ajuste para os demais fatores.

Detalhes que importam mais do que o próprio número:

  • os corredores de um par só acumulavam 91% do seu volume no calçado principal;
  • os de vários pares tinham em média 3,6 pares, e o principal respondia por cerca de 58% do volume.

Ou seja, não se trata de nada exótico. Basta que o calçado principal deixe de ser o único — cerca de metade do volume nele, o restante distribuído.

Por que isso pode funcionar

O mecanismo é plausível, embora não tenha sido testado diretamente nesse estudo.

Cada modelo impõe um padrão próprio de carga: a altura do stack e o drop mudam os ângulos no tornozelo e no joelho; a rigidez da entressola muda a taxa de aplicação da carga; o formato da forma muda o trabalho do pé. Correndo sempre com o mesmo par, você aplica um estresse de estrutura quase idêntica aos mesmos tecidos milhares de vezes seguidas.

As lesões de corrida são, em sua maioria, cumulativas: sofre a estrutura que recebe carga monótona sem recuperação suficiente. Variar o padrão distribui essa carga entre tecidos diferentes — nenhum assume tudo sozinho.

Há também um lado prosaico: o rodízio dá à entressola tempo para recuperar suas propriedades entre as corridas e simplesmente prolonga a vida de cada par.

O que o estudo não prova

Aqui é preciso honestidade, porque o número «menos 39%» é citado com muito mais segurança do que ele merece.

O desenho é observacional. Os corredores não foram distribuídos aleatoriamente entre os grupos — eles mesmos escolheram alternar ou não. E quem tem três pares de tênis em casa é estatisticamente diferente de quem tem um: costuma ser mais experiente, mais atento ao equipamento, ter mais tempo de prática e um plano mais bem pensado. Um estudo observacional não permite separar a contribuição do calçado da contribuição do próprio tipo de corredor.

O estudo é único. Praticamente não houve tentativas grandes de repetir o resultado desde então. Um achado isolado de dez anos atrás é uma hipótese com respaldo, não um fato estabelecido.

Passaram-se mais de dez anos. Nesse período o mercado mudou radicalmente: surgiram os stacks altos, as placas de carbono, as superespumas. Ninguém verificou como o «rodízio» funciona num mundo em que um dos pares é um tênis de prova com placa.

Ninguém verificou o que exatamente alternar. Três pares do mesmo modelo formalmente configuram rodízio, mas dificilmente dão variabilidade de carga. O estudo contou pares, não as diferenças entre eles.

Como aplicar

  • Dois ou três pares bastam. Os dados não sustentam a ideia de que quanto mais, melhor. A ordem de grandeza que vem do estudo é de cerca de 3,6 pares.
  • Alterne com critério. O sentido está na diferença: drop, stack, rigidez. Dois pares iguais dão desgaste, não variabilidade.
  • Separe os papéis. Um par macio e volumoso para as rodagens leves e longas, um mais responsivo para os ritmados, o de prova à parte e com pouca quilometragem.
  • Não considere isso um substituto da progressão. O rodízio não dispensa o aumento gradual do volume; um salto brusco de carga lesiona você com qualquer calçado.
  • Introduza o par novo aos poucos. Mudar a geometria também é mudar a carga. As primeiras corridas com um modelo desconhecido devem ser curtas.
  • Não transfira isso automaticamente para o tênis de prova. Os pares com placa de carbono têm sua própria especificidade, e as conclusões de 2015 não se estendem a eles — sobre isso temos uma análise separada.

O essencial

  • O único estudo relevante (264 corredores, 22 semanas) mostrou 39% menos lesões entre os que alternavam.
  • Referência prática vinda dos dados: cerca de 3,6 pares, com o principal respondendo por 58% do volume, contra 91% entre os de um par só.
  • O mecanismo plausível é o padrão de carga diferente sobre tecidos diferentes, mas ele não foi testado no próprio estudo.
  • O desenho é observacional: é possível que parte da explicação esteja no fato de que corredores com vários pares são, em geral, mais experientes e mais cuidadosos.
  • O resultado não foi repetido, tem mais de dez anos e foi obtido antes da era dos stacks altos e das placas de carbono.
  • O sentido está na diferença entre os pares, não na quantidade deles; o rodízio não substitui o aumento gradual do volume.

Fontes: Malisoux L., Ramesh J., Mann R., Seil R., Urhausen A., Theisen D. «Can parallel use of different running shoes decrease running-related injury risk?», Scandinavian Journal of Medicine & Science in Sports, 2015;25(1):110–115. https://doi.org/10.1111/sms.12154